domingo, 31 de janeiro de 2010

Arredondando os quadrados

Olavo de Carvalho

Diário do Comércio, 8 de janeiro de 2010

Dentre as inumeráveis regras que governam a estupidez humana, estas duas, opostas e complementares, são de especial importância para elucidar a conduta de intelectuais, políticos e formadores de opinião em geral:

Regra no. 1: Se um sujeito está persuadido de que os quadrados são redondos, ele fará todo o possível para arredondá-los.

Regra no. 2: Se o mesmo indivíduo ou outro parecido tem algum interesse em arredondar os quadrados, ele jurará que eles são redondos por natureza.

O pragmatismo, uma modalidade especialmente elegante de estupidez, fundiu essas regras numa só e as erigiu em princípio fundamental do conhecimento: os conceitos das coisas não dizem o que elas são, mas o que planejamos fazer com elas.

Para justificar a afirmativa, que soava um tanto paradoxal e interesseira à primeira audição, essa mimosa escola filosófica argumentou que o pensamento é ação, que portanto pensar numa coisa já é fazer algo com ela. Todos os atos cognitivos tornavam-se assim uma forma de manipulação da realidade, o que resultava em suprimir toda possibilidade de conhecimento teorético e afirmar resolutamente que só existe conhecimento prático.

Enquanto na América Charles Peirce, William James e Josiah Royce se compraziam nessas reflexões tão agradáveis aos homens de indústria, para os quais tudo o que existe não passa de matéria-prima para a produção de outra coisa que também não existirá senão como projeção do que os consumidores pretendam fazer com ela, do outro lado do oceano um cidadão que odiava homens de indústria vinha inventando umas idéias bem parecidas.

Para Karl Marx, uma ciência que pretenda descrever o mundo como ele é não passa de uma ilusão burguesa, nascida da divisão do trabalho. Como os burgueses ficam no escritório ou em casa, sem sujar suas mãozinhas na luta direta com a matéria industrial, eles imaginam que há uma diferença entre conhecimento teórico e prático. Mas os proletários, que pegam no pesado para executar os planos dos burgueses, sabem que seus esforços de todos os dias são a materialização viva das idéias burguesas, as quais portanto não têm nenhuma existência em si mesmas e são apenas planos malignos de obrigar o proletariado a fazer isso ou aquilo. A verdadeira ciência, concluía Marx, não consiste em conhecer a realidade, mas em transformá-la. Os burgueses já praticavam essa ciência, mas não podiam confessar que faziam isso: para preservar sua auto-imagem de pessoas decentes enquanto sugavam o sangue dos proletários, tinham de se enganar a si mesmos imaginando que sua concepção do mundo era pura contemplação teorética, alheia a interesses menores. Daí o culto burguês da "ciência" como uma espécie de religião leiga, personificada no clero universitário que, da Idade das Luzes em diante, sobrepunha sua autoridade à dos padres e bispos medievais.

Não demorou muito para que essas duas correntes de idéias análogas, vindas de continentes distantes, se fundissem numa cabeça especialmente imaginativa, a do filósofo italiano Antonio Labriola, segundo o qual o marxismo é uma espécie de pragmatismo e vice-versa. Labriola repassou essa descoberta a seu discípulo Antonio Gramsci, que a transformou numa genial estratégia de propaganda revolucionária: já que as coisas não são nada em si mesmas, elas podem ser o que o Partido determine que elas sejam. Conseqüentemente, não existe conhecimento da verdade, mas "construção coletiva" da única realidade verdadeira: a conquista do poder, a glória final do partido revolucionário.

As idéias de Gramsci penetraram tão profundamente na alma do esquerdismo universal, que até o militante mais sonso, incapaz de atinar com qualquer sutileza, acaba se deixando conduzir por elas na prática, por uma espécie de mimetismo inconsciente. É com uma total naturalidade que essas pessoas falam a toda hora em "construção da verdade" e "construção da memória", sem ter a mínima suspeita de que esses giros de linguagem implicam de fato a negação de toda verdade objetiva, o intuito de transformar os fatos em vez de conhecê-los.

Num trabalho publicado em 2002, defendendo a criação de "centros de memória empresarial", a historiadora Marieta de Moraes Ferreira, com aquela candura tocante, declarava que o objetivo dessas entidades era "acompanhar o trabalho permanente de construção da memória ao selecionar o que deve ser valorizado e o que deve ser esquecido" (“História, tempo presente e História Oral”. Topoi – Revista de História, Rio, dezembro 2002, p. 314-332).

Em 2007, no I Congresso de Ex-Presos e Perseguidos Políticos, falando em favor daquilo que viria a ser a malfadada "Comissão da Verdade", o promotor Marlon Weichert advogava bravamente a “construção da verdade, através da abertura dos arquivos". Quando a proposta tomou forma, tornando-se evidente aos olhos de todos que se tratava de investigar metade dos crimes e abafar a outra metade, ninguém se lembrou de observar que a seletividade deformante não era uma distorção da idéia original, mas a sua realização literal e exata, perfeitamente coerente com as doutrinas de Labriola e Gramsci. Não por coincidência, o mesmo evento no qual o promotor apresentou sua proposta encerrou-se com uma comovida homenagem aos assassinos Pedro Lobo e Carlos Lamarca, este último o nobre detentor do mérito de haver esmigalhado a coronhadas a cabeça de um prisioneiro amarrado.

Mas não foi só nos meios mais obviamente militantes que o espírito do marxismo pragmatista deixou suas marcas. Nas faculdades de letras, a crença de que os textos não têm nenhum significado em si mesmos, de que cada leitor "constrói sua leitura" conforme bem entenda, tornou-se uma cláusula pétrea dos estudos literários. Se o aluno protesta contra alguma interpretação cretina, alegando "Não foi isso o que o autor quis dizer", tem um zero garantido. Os autores não dizem nada, meu filho: você é que "constrói" as obras deles. Em educação infantil, a longa hegemonia das doutrinas "construtivistas" de Jean Piaget, Emilia Ferrero, Paulo Freire e tutti quanti consagrou a estupidificação geral da meninada como uma grande realização pedagógica: não se espante quando seu filho voltar da escola seguro de que o teorema de Pitágoras é uma imposição cultural arbitrária, de que Jesus Cristo era gay ou de que existem campos de concentração em Israel. Afinal, a realidade é pura construção.

As premissas do marxismo-pragmatismo são tolices sem sentido. Se uma coisa não é nada em si mesma, como poderíamos transformá-la em outra? Se os conceitos nada dizem sobre a realidade, também não podem dizer nada sobre o nosso conhecimento da realidade, o qual é também uma realidade. Se nossa apreensão das coisas não nos dá o conhecimento do que elas são, mas só do que planejamos fazer com elas, como poderíamos conhecer nosso próprio plano se não inventando algum outro plano a respeito dele, e outro, e outro mais, e assim por diante até o infinito. Como outras tantas modas intelectuais, o marxismo-pragmatismo é uma técnica de preencher o vazio com o vácuo.

Mas, quando uma doutrina idiota se impregna em toda uma cultura como essa se impregnou na cultura contemporânea, a própria idiotice se torna premissa fundante de inumeráveis argumentos em circulação, investida de força probatória automática, e toda resistência que se lhe ofereça toma ares de heterodoxia extravagante e abominável.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Verdades e mentiras sobre o Golpe de 1964, a Ditadura Militar e a postura dos evangélicos à época

Texto original de Silas Daniel
http://silasdaniel.blogspot.com/2010/01/verdades-e-mentiras-sobre-o-golpe-de.html

Em 2009, o Golpe de 1964 completou 45 anos. Como era de se esperar, várias manifestações na mídia impressa, televisiva e virtual marcaram a data. Nem todas, porém, justas. Alguns equívocos muito comuns foram repetidos. Por exemplo, as afirmações de que o Golpe de 1964 veio para instaurar uma ditadura no Brasil (quando, na verdade, a Ditadura Militar foi um desvio da proposta do movimento de 1964 e que só ocorreu um ano depois da deposição de Jango); que a deposição de Jango foi "uma tremenda injustiça"; e que os Estados Unidos idealizaram e patrocinaram o Golpe. Essas distorções só prosperam hoje porque, infelizmente, já faz alguns anos que uma educação com viés de esquerda prevalece nas escolas desse país, distorcendo os fatos e reescrevendo a História.
À época, pensei em escrever um artigo a respeito, mas abortei a idéia no meio do caminho, já que o texto ficaria enorme, exigindo de mim tempo significativo dentro do meu pouco tempo. Seria o mais longo texto que já postei neste blog. Porém, hoje, quase um ano depois, depois da discussão no início do ano em torno da Lei de Anistia (por causa do nefasto Programa de Direitos Humanos lançado em 21 de dezembro pelo governo federal), senti-me impelido novamente a escrever o tal texto. Você está exatamente diante dele. Ou melhor, de parte dele. É que, como era de se esperar, ficou extremamente extenso e, por isso, decidi postá-lo em duas partes. Esta é a primeira.
Essa série de dois artigos que enceto hoje objetiva corroborar a não-proliferação dessas versões falsas sobre aquela época de nossa história, distorções estas que, inclusive, têm levado muitos crentes a fazerem julgamentos equivocados sobre o comportamento que a igreja evangélica brasileira teve em relação à deposição de Jango e à Ditadura Militar.
Sim, os evangélicos foram condescendentes com o movimento de 1964, mas, para entender essa atitude, é preciso saber o que o governo Jango estava fazendo à época para provocar essa reação radical da sociedade brasileira, e pelo que lutou realmente esse movimento de deposição, para, então, finalmente, entendermos porque não apenas os evangélicos, mas todos os setores da sociedade civil brasileira e a maioria da população, apoiaram a deposição de Jango. Não, não concordo com golpes de Estado, mas, ao conhecer a conjuntura do movimento de 1964, dá para entender as razões pelas quais a igreja não viu aquele movimento como um mal.
Sim, os evangélicos também foram condescendentes com a Ditadura Militar que veio depois (embora, neste caso, relativamente), assim como a maioria esmagadora da população daquela época apoiou o regime (especialmente no período de 1964 a 1982). Mesmo preferindo obviamente a democracia à ditadura, os evangélicos agiram assim porque sabiam que seu papel, como Igreja, não era partir para o confronto com os militares em prol da democracia, assim como a Igreja Primitiva não se engajou em nenhuma luta pela derrubada do Império Romano, nem mesmo quando Roma passou a perseguir os cristãos a partir do final dos anos 60 da Era Cristã. Os evangélicos sempre foram ordeiros e, como povo ordeiro, não poderiam coadunar com badernas, guerrilha, desordem e movimentos que tentavam derrubar o regime pela força. E em sua esmagadora maioria, não compactuavam com as teologias esposadas pelos que se opunham ao regime em nome da “fé cristã” (refiro-me à Teologia da Esperança e à Teologia da Libertação, que levaram seus adeptos a confundirem socialismo com fé cristã e a muitos deles entrarem para a guerrilha).
A igreja evangélica também estava ciente do que fizeram os comunistas na China, Cuba, URSS e Coréia do Norte (matando, inclusive, milhões de cristãos), o que a levava a valorizar o importante combate que os militares realizavam contra os grupos terroristas que lutavam para implantar o comunismo em nosso país. Por sua vez, o regime militar ainda garantia a liberdade religiosa e honrava as igrejas cristãs de forma geral, que gozavam do respeito e apreço dos militares. Finalmente, os evangélicos da época, como a maior parte do povo, reconheciam o fato de que os principais culpados pelo abortamento do retorno programado - pelos militares - às eleições diretas (falo disso no segundo artigo), bem como pelo endurecimento e excessos dos militares durante o regime, foram os terroristas de esquerda, que promoveram destruição e caos, mataram mais de 130 pessoas, seqüestraram, e assaltaram bancos, casas e carros. Os militares apenas reagiram a eles, embora tenham se excedido nesse processo, cometendo crimes. Hoje, omite-se deliberadamente que os terroristas já haviam matado dezenas de pessoas de 1964 até dezembro de 1968 antes de o regime instaurar o AI-5, começando a repressão e dando meia volta volver no processo de retorno à democracia plena.
Bem, para que você fique plenamente inteirado do que estou falando, detalho abaixo quatro fatos fundamentais olvidados e/ou omitidos sobre o Golpe de 1964 e a Ditadura Militar. Vamos ao primeiro.
1) O Golpe ou Revolução de 1964 foi um contra-golpe ao processo de “cubanização” do Brasil que já estava em explícito andamento; ele veio para evitar uma ditadura, não para instaurar uma. A Ditadura Militar, que surgiu um ano após o movimento de 1964, foi um golpe dentro desse contra-golpe.
Não é verdade que o Golpe de 1964 pretendeu estabelecer uma ditadura. Foi exatamente o contrário: ele ocorreu para garantir a democracia em nossa nação, impedindo a implantação de uma ditadura comunista em nosso país. O movimento de 1964 foi um contra-golpe ao processo de “cubanização” do Brasil, que já estava em andamento.
Para quem não conhece os fatos sobre o processo acelerado de “cubanização” do Brasil naquela época, e que levaram ao movimento nacional de deposição de Jango, passarei a elencá-los a seguir.
À guisa de introdução, lembremos o contexto da época.
O mundo vivia a Guerra Fria. A União Soviética e seus satélites apoiavam e financiavam a implantação do comunismo no mundo, e os Estados Unidos lutavam para impedir essa expansão, apoiando todos quantos se opusessem aos movimentos de guerrilha revolucionária comunista nos seus respectivos países.
Em 1959, a guerrilha dos irmãos Castro e Guevara apeou do poder o ditador Fulgêncio Batista, uma espécie de "Getúlio Vargas" de Cuba. Batista era um militar que apoiou e concretizou um golpe de Estado em Cuba em 1933. Anos depois do golpe, mais precisamente em 1940, foi eleito presidente daquele país em eleições diretas, sendo sucedido por Ramon Grau, que venceria as eleições de 1944, e Carlos Prío Socarrás, que venceria as eleições de 1948. Em 1952, depois de três eleições, quando a democracia em Cuba parecia solidificada e Batista concorria à presidência mais uma vez, este resolveu promover outro golpe de Estado, dessa vez em seu próprio benefício, para se fixar no poder. Durante sua gestão, Batista mandou prender opositores e enriqueceu ilicitamente. Seu governo ditatorial foi criticado tanto por comunistas e esquerdistas em geral quanto por democratas e liberais. Porém, foi a guerrilha de esquerda que obteve êxito, derrubando-o. E quando os irmãos Castro e seus revolucionários o derrubaram, em vez de restituírem a democracia a Cuba, implantaram eles mesmos sua própria ditadura, e incomensuravelmente mais violenta.
Se o ditador Batista prendia seus opositores, os irmãos ditadores (Fidel e Raul) simplesmente os matavam aos milhares.
Os cubanos não-esquerdistas que lutaram contra a ditadura de Fulgêncio foram todos exilados ou mortos pelos irmãos Castro. Logo nos primeiros dias após a Revolução, Fidel e sua turma fuzilaram nada menos que 600 opositores ideológicos. Guevara liderou em Cuba o primeiro campo de concentração da América Latina. Chamavam-no de “Unidade Militar de Apoio à Produção” (Umap). Ali, nos quase dois anos que passou “apoiando a produção”, o argentino fuzilou mais de 400 pessoas (Ver livro Guevara: Misionero de La Violencia, do ex-preso político e renomado historiador cubano Pedro Corzo, que cita todos os mortos. Para uma consulta mais imediata, há uma lista com o nome de 200 dessas vítimas de Guevara aqui e fotos e dados de mais de 100 dessas vítimas aqui).
Nos dez primeiros anos de ditadura, Raul, Fidel e Guevara fuzilaram mais de 7 mil pessoas e encarceraram 30 mil cubanos nas Umap’s (Informações sobre algumas dessas chacinas aqui e fotos de alguns fuzilamentos executados por Raul, Fidel, Guevara e companhia podem ser vistas aqui). Por isso, em 1960, com apenas um ano de Revolução, 50 mil cubanos já haviam fugido da ilha. Em 1963, o número de cubanos que fugiram do terror em seu país já havia subido para 250 mil. Ou seja, a ditadura dos irmãos Castro era uma “maravilha” tão grande que centenas de milhares de cubanos “deram no pé” em apenas quatro anos de regime. E ainda hoje há gente fugindo daquela “ilha da fantasia”...
Só para registro: de 1959 a 2008, a ditadura cubana fuzilou 17 mil pessoas e jogou nas Umap’s mais de 100 mil opositores; e o número de cubanos que tentam fugir da ilha é hoje, em média, de 5 mil por ano – o recorde foi em 1994: 37 mil lançaram-se ao mar em fuga.
Mas, voltemos a meados do século 20.
Antes mesmo de Cuba, o grande interesse do Movimento Comunista internacional era o Brasil. O namoro já era antigo. Em 1935, a mando da URSS, os comunistas, encabeçados por Luis Carlos Prestes (então membro da Comissão Executiva da Internacional Comunista – Comintern), já haviam tentado tomar o poder, matando 28 militares no Estado da Guanabara, 20 pessoas (entre militares e civis) em Natal e 720 (entre militares e civis) em Recife (História das Revoluções Brasileiras, do historiador Glauco Carneiro, volume 2, p. 424). Ainda em Natal, durante os três dias de tentativa de revolução, promoveram saques, estupros e arrombamentos (Relembre esses crimes – ou leia sobre eles a primeira vez aqui). E na Guanabara, logo depois da Intentona, os comunistas ainda mataram uma jovem de 18 anos – Elza Fernandes –, namorada de um dos “camaradas”, apenas por suspeitarem que ela denunciara o grupo. Se realmente tivesse denunciado, estaria cumprindo seu dever como cidadã; mas, o pior é que ela não o fez (Relembre essa terrível história aqui).
Enfim, desde a década de 30, o Brasil era visto como estratégico pela Internacional Comunista pelo seu tamanho e representatividade na América Latina. Ter um país do tamanho do Brasil como satélite comunista na América Latina seria uma grande conquista e uma influência poderosa sobre os demais países do continente. China, na Ásia, e Brasil, na América Latina, eram duas antigas obsessões. A China, desde 1949, devido ao trabalho de Mao Tse-tung (que mandou ali de 1949 a 1959 e de 1966 a 1976), tornou-se comunista. Faltava agora o Brasil.
Os anos se passaram e, um ano apenas após a Revolução Cubana, os comunistas resolveram investir outra vez na conquista do Brasil. E em pouco tempo, a sociedade brasileira, que ainda mantinha viva na memória a Intentona de 1935, foi tomando ciência desse projeto.
O primeiro fato a ser notado foi o surgimento e crescimento de grupos de guerrilha comunista no Brasil, patrocinados, armados e treinados pelos comunistas internacionais, e empenhados declaradamente em instaurar uma ditadura comunista no país. Em segundo lugar e simultaneamente às guerrilhas, vieram as primeiras invasões de terra no campo, e com o apoio do governo federal durante a presidência de João Goulart. Em terceiro lugar, nos primeiros anos da década de 60, centenas de sindicatos foram criados no Brasil (cerca de mil em apenas quatro anos), sendo o número de greves fomentadas por setores de esquerda naquele período algo inigualável na história do país. Então, quando, em 13 e 17 de março de 1964, o presidente João Goulart manifestou a intenção de desapropriar terras - e sem promessa de indenização - para promover a reforma agrária, ameaçou a ordem econômica com o estatismo, propôs uma nova Constituição conforme seus ideais e incitou descaradamente a rebelião dentro das Forças Armadas, desrespeitando hierarquias e favorecendo injustamente militares de esquerda, a sociedade civil brasileira não teve dúvida e saiu em massa às ruas. Depois dos discursos de 13 e 17 de março de 1964, sua deposição foi inevitável.
Vamos recapitular cronologicamente esses fatos.
A partir do ano de 1960 até o período final do Regime Militar, milhares de comunistas brasileiros treinaram terrorismo na União Soviética, China, Cuba, Coréia do Norte e Argélia. O objetivo expresso desse treinamento era tentar promover uma revolução comunista no Brasil, implantando a “ditadura do proletariado”, a “cubanização” do país. Sobre tais treinamentos, tão convenientemente omitidos hoje em dia, leia a obra O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil, da professora Denise Rollemberg; e a obra A Revolução Impossível, de Luís Mir. Eis alguns links sobre o assunto aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
A prática comunista de incentivar e patrocinar guerrilhas nos outros países foi idealizada ainda na época de Stalin.“Os líderes comunistas sempre procuraram criar situações revolucionárias. Lenin favorecia a agitação para conseguir seus objetivos de domínio mundial do comunismo, e Trotsky pregava providências ainda mais militantes. Foi, no entanto, Stalin quem preferiu treinar um exército de subversivos clandestinos que se infiltrariam nas democracias para destruí-las de dentro para fora… a perigosa quinta-coluna” (Hutton, Os subversivos, p. 9).
Herbert José de Souza, mais conhecido como “Betinho”, ex-dirigente do grupo esquerdista Ação Popular, contou em depoimento no livro O Fio da Navalha: “Ainda antes da Revolução de 31 de março de 1964, no governo do presidente João Goulart, um grupo de militantes do Partido Comunista do Brasil foi enviado à China, onde recebeu treinamento militar na Escola Militar de Pequim. Também um grupo de dirigentes da Ação Popular recebeu treinamento político-ideológico na China no início dos anos 70”.
Desde 1961, as Ligas Camponesas do deputado comunista Francisco Julião, surgida em Pernambuco, já haviam se armado para a revolução e recebido treinamento de guerrilha dos chineses e cubanos. De Cuba, receberam ainda armas e dinheiro para comprar fazendas em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco para funcionarem como campos de treinamento. Essa história está contada parcialmente aqui, mas pode ser lida em detalhes na obra supracitada da professora Denise Rollemberg. Após a deposição de Jango, as Ligas foram fechadas, as armas apreendidas e seus membros presos ou exilados.
Em 1963, Leonel Brizola montara o chamado “Exército Popular de Libertação”, formado de grupos de 11 pessoas (os G-11) com, ao todo, 58.344 homens distribuídos pelo Rio Grande do Sul, Guanabara, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. No documento denominado “Instruções Secretas”, escreveu Brizola ao seu exército, justificando o uso que seu grupo pudesse fazer de atos de violência: “Não nos poderemos deter na procura de justificativas acadêmicas para atos que possam vir a ser considerados, pela reação e pelos companheiros sentimentalistas, agressivos demais ou, até mesmo, injustificados”. Sobre sua certeza do compromisso de João Goulart com a revolução comunista, escreveu ele: “Devemos nos lembrar que, hoje, temos tudo a nosso favor, inclusive o beneplácito do Governo e a complacência de poderosos setores civis e militares, acovardados e temerosos de perder seus atuais e ignominiosos privilégios”. Sobre a escassez de armas para a luta: “A escassez inicial de armas poderosas e verdadeiramente militares será suprida pelos aliados militares que possuímos em todas as Forças Armadas”.
Sobre as táticas a serem usadas pelo seu exército, orientou Brizola: “Os camponeses, dirigidos por nossos companheiros, virão destruindo e queimando as plantações, engenhos, celeiros, depósitos de cereais e armazéns gerais. A agitação será nossa aliada primordial e deveremos iniciá-la nos veículos coletivos, à hora de maior movimento, nas ruas e avenidas de aglomeração de pedestres, próximo às casas de armas e munições e nos bairros eminentemente populares e operários. Desses pontos e à sombra da massa humana, deverão convergir os G-11 especializados em destruição e assaltos, já comandando os companheiros e com outros se ajuntando pelas ruas e avenidas, para o centro da cidade, vila ou distrito, de acordo com a importância da localidade, depredando os estabelecimentos comerciais e industriais, saqueando e incendiando, com os molotovs e outros materiais inflamáveis, os edifícios públicos e os de empresas particulares. Ataques simultâneos serão desfechados contra as centrais telefônicas, rádio-emissoras e, onde houver, de TV, casas de armas, pequenos quartéis militares”.
Finalmente, ao cogitar a possibilidade da revolução comunista não acontecer, orientou Brizola seus soldados como se segue: “No caso de derrota do nosso Movimento, o que é improvável, mas não impossível, dado a certas características da situação nacional, e temos que ser verdadeiros em todos os nossos contatos com os Comandos Regionais e esta é uma informação para uso somente de alguns companheiros de absoluta e máxima confiança, os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de que não denunciem seus aprisionadores e não lutem, posteriormente, para sua condenação e destruição”.
Mais sobre Brizola e seus soldados, inclusive após o Golpe de 1964, leia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Como se não bastasse tudo isso, em setembro de 1963, um grande carregamento de armas que se encontrava a caminho do Brasil, procedente da Europa oriental, foi interceptado pelo Exército Brasileiro, que enviou uma tropa ao navio e conseguiu confiscar toneladas de armas portáteis, munições, metralhadoras, equipamentos de comunicações de campanha e montões de propaganda pró-comunismo em português. E quando Luis Carlos Prestes foi preso em 1964 logo após a deposição de Jango, foi encontrado com grande quantidade de armamentos pesados originários de Cuba.
Mas, antes mesmo das primeiras apreensões de armas, planos e cartilhas da guerrilha, a imprensa brasileira já havia se apercebido do que acontecia às escondidas no país. Em 1961, chegou às mãos da Redação do jornal O Globo informações confidenciais sobre o plano de tomada de poder no país pelos comunistas, o que resultou em grandes reportagens de denúncia no jornal a respeito do assunto.
Foi em 13 de maio de 1961 que o jornal O Globo publicou, pela primeira vez, um encarte denunciando a orquestração que se formava no país para implantar uma ditadura comunista. Abaixo, cito na íntegra, conforme arquivo do médico e escritor Heitor de Paula, dois textos do referido encarte:

Entreguismo Vermelho
Plano Básico do Comunismo Internacional

“O comunismo não é fraternidade; é a invasão do ódio entre as classes. Não é a reconciliação dos homens; é a sua exterminação mútua. Não arvora a bandeira do Evangelho; bane a Deus das almas e das reivindicações populares. Não dá trégua à ordem. Não conhece a liberdade cristã. Dissolveria a sociedade. Extinguiria a religião. Desumanaria a humanidade. Everteria, subverteria, inverteria a obra do Criador” (Ruy Barbosa)
Em 1957, por ocasião das comemorações do quadragésimo aniversário da Revolução Russa, um grupo de dirigentes comunistas reuniu-se em Moscou para organizar o plano de ação de vários partidos comunistas de todo o mundo, segundo a nova "linha" estabelecida pelo Kremilin. Tendo Khruchtchev consolidado sua posição de dirigente supremo da U.R.S.S., modificou o sistema anterior de direção dos partidos comunistas estrangeiros, dissolveu o Cominform e fez novamente de Moscou o centro do poder e a única fonte de autoridade sobre aqueles partidos.
Os representantes dos PCs deste continente tiveram, na época, uma reunião especial, sendo as delegações do Brasil, Argentina, México e Chile as mais numerosas, num total superior a 179 delegados. Uma cópia do plano, mais tarde, foi revelada em Lima e divulgada em sua parte referente à América Latina.
As decisões
Em linhas gerais, as decisões da referida reunião especial com os dirigentes latino-americanos podem ser assim enumeradas: De Moscou vem a iniciativa, a orientação e o comando para o desenvolvimento da ação comunista. Assim, por exemplo, a luta entre os PCs do Brasil, da Argentina, do México e do Chile pela supremacia entre os partidos latino americanos cessou definitivamente, passando cada um deles a partidos autônomos com relação aos outros, mas subordinados todos à direção de Moscou. Neste Continente, o desenvolvimento dos partidos comunistas deve ser escondido do público, embora mais do que nunca se trabalhe internamente em cada país pela "defesa" da União Soviética e do Socialismo. Duas bandeiras devem encobrir essas atividades comunistas: o "nacionalismo" e a luta por constantes aumentos de salários e redução de horas de serviço, com aumento também das inatividades remuneradas.
“Os comunistas não devem declarar que lutam contra o capitalismo, mas, sim, contra o ‘monopólio estrangeiro’ e ‘a tendência monopolizadora das empresas norte-americanas’. Para isso devem ficar de lado as campanhas de exaltação do comunismo ou da Rússia, para dar lugar ao acirramento do ódio e da resistência aos Estados Unidos, entre a burguesia comercial e a industrial e, principalmente, entre a pequena burguesia, os intelectuais e os estudantes”.
“Os comunistas não devem usar a doutrina da luta de classes, mas devem lutar contra todas as idéias de ‘harmonia entre as classes’, de ‘relações humanas’ e de ‘capitalismo popular’. Divisão de trabalho dando-se preferência às atividades de infiltração. Enquanto um grupo coopera com o Governo, outro, menos silencioso, deve ficar com a oposição. O grupo infiltrado no governo criará as condições de liberdade de ação para os comunistas de oposição a fim de que essas possam exercer maior influência sobre a comunidade”.
“Cooperar com todas as forças de oposição, onde haja liberdade, mas cooperar também com os ditadores, quando não houver movimentos de oposição; dar assistência a todos os grupos, independentemente de suas tendências, que de algum modo se oponham aos Estados Unidos, seus empreendimentos oficiais ou suas empresas particulares. Tomar como aliado todo e qualquer descontente com a política norte-americana”.
“Dividir os partidos comunistas em grupos diferentes que se devem infiltrar nos vários partidos políticos, principalmente na oposição política, estimulando, sob as bandeira do nacionalismo, o ódio aos Estados Unidos”. Nesse ponto, o documento recomenda cuidadosamente que se evitem os aspectos de pregação comunista.
Há uma parte do plano, porém, que mais impressionante parece, quando analisamos diante do quadro latino-americano. É a parte em que a resolução de Moscou apresenta como principal objetivo dos partidos comunistas ocidentais o enfraquecimento da economia de cada país não comunista pelo apoio às exigências constantes de salários sempre maiores, de férias remuneradas mais longas e de maiores vantagens da Previdência Social, assim como a condenação do progresso tecnológico, sob a alegação de que esse é a causa do desemprego e resulta em superexploração, por impedir que mais homens trabalhem e permitir que mulheres tomem seus lugares. A aplicação minuciosa dessas medidas determinadas pela reunião de Moscou já se fez sentir em toda a parte. Cada dia, uma comprovação. Não nos assiste, portanto, o direito de cruzar os braços diante do perigo presente.

Ao referir-se ao "perigo presente", O Globo refere-se ao Brasil nos primeiros três meses e meio do mandato de Jânio Quadros, que duraria só mais três meses: as greves e os sindicatos recém-criados nesse período seguiam à risca essa cartilha, enquanto o presidente Jânio, sob o discurso de que o Brasil, sob seu governo, teria uma “política externa independente”, pregava o restabelecimento das relações diplomáticas e comerciais com a URSS e a China comunista, e condenou o isolamento de Cuba.
Outra matéria da extensa reportagem da edição de 13 de maio de 1961 de O Globo segue abaixo:

Comprovações do entreguismo vermelho
Seguindo-se sempre o zigue-zague das mutações determinadas por Moscou, chegamos aos dias atuais em que o Partido caminha na direção estabelecida pelo XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em fevereiro de 1956. Khruchtchev, substituto de Stalin na ditadura soviética, confirmou em discurso, perante aquele Congresso, alguns dos crimes e violências praticados pelo ditador morto, contra indivíduos e nações. O discurso, pronunciado secretamente, mas depois divulgado pelas próprias autoridades russas, determinou, em todos os partidos comunistas de fora da Rússia, a queda dos líderes que, de certo modo, se desiludiram com a confissão de tantos crimes sempre negados, até pelo próprio Khruchtchev, quando Stalin era vivo. Ficaram apenas aqueles líderes locais que, embora nascidos fora da Rússia, a servem incondicionalmente, mesmo quando em situação de flagrante traição a suas pátrias. No Brasil, Luiz Carlos Prestes ficou. Muitos líderes locais comunistas brasileiros, sem renunciar as suas ideais socialistas, reconheceram de público o caráter totalitário e imperialista da Rússia Soviética e abandonaram o Partido. Mas Luiz Carlos Prestes ficou.
Entre os que não ficaram, Osvaldo Peralva, do grupo dos intelectuais do Partido, publicou recentemente o livro "O Retrato", em que dá as razões do seu desligamento das hostes vermelhas, denuncia o caráter entreguista do Partido Comunista Brasileiro e faz considerações sobre o comunismo internacional. A esse respeito diz Peralva: "A força da atração do bolchevismo tem residido na rapidez com que, combinando o impulso revolucionário com as medidas compulsórias, promove o desenvolvimento das grandes indústrias. Daí que só tenha triunfado em países subdesenvolvidos (Rússia, China, Vietnam etc.), ou onde foi levado na ponta das baionetas soviéticas, como é o caso da Tcheco-Eslováquia. É certo que na Itália e na França existem poderosos partidos comunistas, mas ali o bolchevismo jamais representou grande força, antes da II Guerra Mundial. Somente após o rompimento do pacto nazi-soviético e a agressão hitlerista contra o aliado da véspera, num momento em que a resistência ao ocupante nazista, na França e na Itália, coincidia com os interesses da União Soviética, é que os dirigentes comunistas daquelas duas nações conquistaram o apoio e a simpatia de amplas massas. Guiando-se pelo principio estalinista de que ‘a atitude ante a U.R.S.S. é a pedra de toque do internacionalismo proletário’, eles se destacaram na luta contra o inimigo comum – de seus países e da U.R.S.S. – visando sobretudo defender a ‘pátria do proletariado’, mas aparecendo aos olhos de seus povos como valorosos combatentes pela libertação nacional”.
“No único país altamente industrializado em que o bolchevismo se instaurou – a Tcheco-Eslováquia – o bem estar econômico das massas trabalhadoras diminuiu. (...) E na própria estrutura da sociedade verificou-se um retrocesso, pois a antiga democracia tcheco-eslovaca, com suas tradições de respeito às liberdades e aos direitos individuais, foi substituída pela ditadura de uma camarilha burocrática”.
Como se vê, no primeiro resumo de artigo deste suplemento, na análise do plano comunista revelado em Lima, em 1957, Khruchtchev dissolveu também o Cominform e Moscou passou a ser o centro do poder e a única autoridade. Do Kremlin vem a iniciativa, a orientação e o comando para o desenvolvimento da política comunista no mundo ocidental. Uma afirmação dessa gravidade seria de difícil aceitação se os fatos não a viessem frequentemente comprovar.Alunos na Rússia, mestres na América Latina
O plano de domínio pela Rússia dos países menos desenvolvidos de todo o mundo, embora conhecido no conjunto, só tem podido ser verificado em retalhos, em fatos isolados, apenas percebidos em seu verdadeiro significado por aqueles que estudam as manobras dissimuladas do imperialismo soviético. Mas esses fatos surgem e, com algum cuidado, podem ser estudados, em sua importância exata.Em princípios de outubro de 1959, a Polícia Política do Rio de Janeiro prendeu o agente comunista internacional José Manoel Fortuny Arana que se encontrava clandestinamente no País, protegido por um passaporte falso. Fortuny tornou seu nome conhecido como um dos comunistas mais ativos da Guatemala, durante os anos sangrentos do regime de Arbenz. Quando os comunistas guatemaltecos foram postos para fora do poder, pela revolução popular de Castillo Armas, Fortuny escapou para a Europa, de onde veio para o Brasil a fim de, segundo informações oficiais, pôr em execução planos destinados a derrubar vários governos sul-americanos. Fortuny não viria ao Brasil para outro fim, encoberto por uma falsa identidade. Como Luiz Carlos Prestes e outros, é um agitador preparado em Moscou para a função específica de organizar, nos países em que consegue entrar, a subversão e a desordem. Mas esses fatos se perdem na imprensa diária e o povo os esquece.

As Ligas Camponesas de Francisco Julião
Não obstante a controvérsia que surge, de vez em quando, sobre a natureza real das Ligas Camponesas de Pernambuco, organizadas pelo Dep. Francisco Julião, a verdade é que essas ligas representam uma das mais perigosas infiltrações comunistas no País.
Aproveitando as más condições em que vivem os lavradores do Nordeste, o Deputado Julião promove o mais intenso movimento subversivo de preparação da revolução comunista no Brasil, acobertado pelo pretexto de exigir a reforma agrária. Como exemplo e ídolo para o lavrador nordestino, Francisco Julião apresenta a figura de Fidel Castro, levada àquelas paragens como salvador do camponês cubano e inspirador de todos os homens do campo da América. Em seu trabalho constante, as Ligas subvertem a ordem, provocam a ação policial, prejudicam o equilíbrio econômico da região e preparam o terreno para a ação dos agentes comunistas.Mas, de tudo o que mais impressiona é a exaltação permanente de Fidel Castro, o homem que entregou Cuba ao comando do imperialismo sino-soviético.
Compreende-se, naturalmente, que os camponeses do nordeste brasileiro tenham justa ansiedade em resolver seus problemas econômicos e sociais, mas, positivamente, não se compreende que a solução de tais problemas seja oferecido a troco da traição à Pátria. Mesmo porque jamais haverá solução para os problemas do homem do campo sob o regime que Fidel Castro instalou em Cuba, como muitos outros agentes de Moscou têm instalado em outras nações hoje escravizadas ao jugo soviético.

Bem, o que ocorreu desde a matéria de O Globo de 13 de maio de 1961 até 1963?
Em seu curto mandato presidencial sabotado por ele mesmo, o presidente Jânio Quadros fez uma política de aproximação com os comunistas, visitando e elogiando Cuba e condecorando o guerrilheiro Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, e restabeleceu as relações entre o Brasil e URSS e China. Aliás, na renúncia de Jânio, seu vice João Goulart estava em visita à Rússia e à China comunistas exatamente restabelecendo as relações diplomáticas entre o Brasil e esses países (veja aqui e aqui).
Antes de Goulart voltar ao Brasil para assumir a presidência no lugar de Jânio, surgiu forte resistência em relação ao seu nome por parte de alguns setores da sociedade (que contaram inclusive com o apoio de militares) por ser ele escancaradamente esquerdista e simpático à Revolução Cubana. Além do mais, seu cunhado e parceiro ideológico Leonel Brizola (casado com Neusa Goulart, irmã de Jango), então governador do Rio Grande do Sul, declarado defensor da “cubanização” do Brasil e mentor de Goulart, havia estatizado, durante seu mandato como governador gaúcho, duas empresas norte-americanas sem direito a indenização, o que criou um impasse entre o Brasil e os Estados Unidos; e também desapropriara terras para reforma agrária usando como critério uma emenda na constituição gaúcha que garantia a desapropriação de terras se houvesse tão somente um abaixo-assinado com 100 assinaturas pedindo-a. Brizola estimulou os abaixo-assinados em acampamentos de agricultores para forçar desapropriações.
Foi o temor pela “cubanização” do país em um mandato Jango com Brizola ao seu lado que fez com que, após a renúncia de Jânio, se cogitasse fortemente impedir a posse do seu vice (mesmo contrariando a Constituição) e invocar outras eleições presidenciais. Diante dessa ameaça, Brizola promoveu a chamada “Cadeia da Legalidade”, uma campanha pelo rádio em prol do cumprimento da Constituição, isto é, da posse do vice, seu cunhado Jango, no lugar do renunciante Jânio. A causa defendida por Brizola foi justa, mas isso não significa dizer que Brizola fosse defensor do cumprimento estrito da Constituição. Como seus atos à época mostraram, sua defesa foi por conveniência. Para ele, os ideais socialistas estavam acima.
Enquanto Brizola, apoiado por militares de esquerda, fazia sua campanha, formando, inclusive, uma trincheira armada de onde provocava as Forças Armadas, uma solução política já havia sido negociada no Congresso Nacional. Em 2 de setembro de 1961, foi aprovada uma emenda constitucional (número 4) alterando o regime de governo para o parlamentarismo. Com os poderes de Jango limitados ao de um chefe de Estado e não de governo, o temor em relação a um governo Goulart desapareceu e, em 7 de setembro, dois dias depois de voltar da China, João Goulart tomou posse como presidente.
A resistência inicial a Jango fez com que este engavetasse temporariamente alguns de seus projetos “cubanizadores”, passando a usar um discurso centrista, o que irritou seu cunhado Brizola. Mas, não demorou muito para Jango voltar ao seu normal. Estrategicamente, Goulart agira assim no início de seu mandato como chefe de Estado, para tentar convecer a todos que não era mais um esquerdista "carnívoro", mas "herbívoro", para, dessa forma, conquistar a confiança de seus opositores. Ele queria a volta ao presidencialismo.
Em 1962, Goulart dá os primeiros passos de retorno ao velho estilo. Ele foi à ONU tentar defender as estatizações sem indenização de Brizola no Rio Grande do Sul (veja aqui). No mesmo ano, idealizou um plebiscito para que o sistema presidencialista voltasse. O plebiscito ocorreu em 6 de janeiro de 1963 e, após uma campanha maciça de Jango, o presidencialismo venceu.
No final de 1962, o gaúcho Brizola, pretendendo estar mais perto de Jango para ajudá-lo no ano seguinte no processo de “cubanização” do país, se candidatou e se elegeu deputado federal pelo então Distrito Federal, o Estado da Guanabara, assumindo o cargo no ano seguinte.
Em 1963, Goulart, sem o regime parlamentarista para tolhê-lo e com o apoio de Brizola ao seu lado, começou seu projeto de “cubanização”. Ainda naquele ano, ele apoiou as invasões de terra das Ligas Camponesas no Nordeste, o que levou, por exemplo, o jornal O Globo a retomar o assunto da reportagem especial de 1961. Eis o texto da matéria de O Globo em 1963:
Meditem os responsáveis pelo destino do País
Há cerca de dois anos passados, sob o título-tema de "Entreguismo Vermelho”, publicamos um suplemento em forma de revista, denunciando o trabalho do comunismo internacional no sentido de arrastar para o domínio da Russia soviética muitas nações de vários continentes, principalmente as de menor desenvolvimento econômico, como o Brasil. Foi tão clara a exposição dos fatos e tão irrefutável a documentação apresentada naquele suplemento, que por muito tempo se estendeu a repercussão da denúncia, glosada em vários comentários da imprensa, em declarações de líderes políticos democráticos e em afirmações decididas de autoridades eclesiásticas.O suplemento trazia como epígrafe um trecho do discurso do Presidente Getúlio Vargas, que assim se referia aos comunistas e suas atividades anti-nacionais: “A dissiminação da mentira, a felõnia, constituem as suas armas, chegando, não raro, à audácia e ao cinismo de se proclamarem nacionalistas e de receberem o dinheiro da traição para entregar a Pátria ao domínio estrangeiro. Sejam quais forem os disfarces e os processos usados, os adeptos do comunismo perseguem, invariavelmente, os mesmos fins”.
O decorrer do tempo comprovou cada uma dessas afirmações de Vargas. Mais adiante, mostraremos que isso aconteceu em muitas partes do mundo, nos últimos dois anos. Quanto ao Brasil, porém, basta pequeno esforço de memória para relembrar que no mesmo período os comunistas dissimularam, mentiram, proclamaram-se nacionalistas, receberam dinheiro da traição e muito fizeram para entregar a Pátria ao domínio estrangeiro. E assim continuam a agir, porque embora mudem de vez em quando as condições político-sociais e, consequentemente, seus métodos de ação, o movimento comunista internacional tem sempre os mesmos objetivos, que é a entrega de nações ao domínio da Russia soviética.
O plano comunista, originário de Moscou, que denunciamos há dois anos passados, com forte reação democrática do povo brasileiro, não conseguiu os efeitos desejados pelos dirigentes vermelhos. Mas os esforços comunistas continuam, mais dissimulados, mais insidiosos, contra a liberdade e a independência deste País, deste Continente, do Mundo.
Para aferir os perigos permanentes que nos ameaçam e a muitos outros países, repetiremos os pontos básicos do plano comunista para a conquista da América Latina. Meditem sobre eles os responsáveis pelos destinos do País.

Então, a matéria repetia o texto da reportagem de 1961, o qual já apresentamos.
Em 1963, setores da sociedade civil, sentindo a forte guinada do país à esquerda, começaram a manifestar-se e a protestar contra os ideais do governo e as denúncias de corrupção que se seguiram. Sobre a mobilização popular em todo o país, escrevo no segundo artigo. Sobre a corrupção, eis um relato abaixo:

Com uma renda declarada de menos de 50 milhões de cruzeiros em 1963, Goulart, por exemplo, conforme documentos apreendidos pelo Conselho de Segurança Nacional depois que ele fugiu para o exílio – gastou 236 milhões de cruzeiros somente em suas fazendas do Mato Grosso. Enquanto Goulart insistia no confisco das propriedades dos latifundiários e na distribuição da terra aos camponeses, os registros de imóveis demonstram que ele rapidamente somava imensas propriedades às que já tinha. Só depois que Jango fugiu pôde o Brasil medir a sinceridade dele em matéria de partilha de terras. Proprietário de terras apenas em São Borja, quando iniciou sua vida pública, ao abandonar o País em abril de 64 Goulart era o maior latifundiário do Brasil, possuindo em seu nome mais de 7.700 quilômetros quadrados de terras, uma área quatro vezes e meia superior à do município do Rio de Janeiro.
E havia os que compartilhavam as oportunidades de ficarem ricos depressa. Indiscrições sobre uma possível mudança na política oficial, como sobre taxas de câmbio, davam milhões a favoritos palacianos. Empreendimentos de qualquer gênero eram vinculados a comissões e retribuições em dinheiro.
Verificou-se que um membro do estafe de Jango tinha um bico como ‘ministro-conselheiro’ de assuntos econômicos numa embaixada no exterior – emprego a que nunca dedicou um dia de trabalho, mas adicionava mais de 15 milhões de cruzeiros ao seu salário anual de oito milhões e meio. O tráfico de influência era um fato. Um dos deputados do Partido Trabalhista, de Goulart, estava fazendo uma fortuna acrescentando 1.295 funcionários à sua folha de pagamento em troca de uma fatia dos vencimentos deles.Outro negócio confortável, explorado por um do peito do Governo, era conseguir bons empregos públicos para quem pudesse pagar-lhe uma taxa de um milhão e meio de cruzeiros. Um governador de Estado estava fazendo fortuna com contrabando; outro recebeu uma verba de 6 bilhões e meio de cruzeiros para a construção de rodovias e calmamente embolsou o total.
Além de todas essas velhacarias de alto calibre, que podiam ser documentadas, inúmeros milhões de cruzeiros desapareciam sem deixar rastro no poço sem fundo da corrupção que campeava.
(...)
Especialmente mimada pelo Ministério da Educação era a UNE (União Nacional dos Estudantes), cuja diretoria era completamente dominada por vermelhos e cujos 100.000 sócios constituíam a maior organização estudantil nacional da América Latina. Durante anos, um subsídio anual do Governo, de cerca de 150 milhões de cruzeiros (valores de 64) era entregue aos diretores da UNE – sem que tivessem de prestar contas. Assim garantidos, eles se dedicavam integralmente à agitação política entre os estudantes. Parte desse subsídio era usado para financiar excursões à Cuba Vermelha e visitas a grupos de irmãos de estudantes comunistas em outros países da América Latina. (...) A UNE publicava panfletos inflamados e um jornal semanal marxista. Fingindo-se empenhado em combater o analfabetismo, um grupo da UNE passou dois meses distribuindo material de leitura, no qual se incluía o manual de guerrilhas do castrista Che Guevara – impresso em português por comunistas brasileiros da linha vermelha chinesa. Líderes da UNE especializavam-se em fomentar greves escolares estudantis, demonstrações públicas e distúrbios de rua.

A citação acima é da obra A Nação que Salvou a Si Mesma, de Clarence Hall, publicada pela Biblioteca do Exército e posteriormente sintetizada em formato de artigo na revista Seleções, do Reader’s Digest.
Em 1963 e 1964, a inflação subiu em espiral com o aumento da impressão de toneladas de papel-moeda sem lastro, fazendo o cruzeiro alcançar uma desvalorização abissal. Além disso, o capital estrangeiro fugira do país devido ao aumento das restrições a ele impostas pelo governo Jango e às constantes ameaças de desapropriação proferidas pelo presidente (vide discurso de Jango à ONU em 1962 e o apoio às invasões camponesas).
Porém, em 1964, Jango passou de todos os limites. Ele promoveu uma rebelião entre os militares apoiando militares de esquerda. E mais: anunciou, em seu discurso na Central do Brasil em 17 de março de 1964, a cartilha do golpe que planejara junto com Brizola: (1) a “superação da estrutura de governo e da ordem social vigentes”, exigindo “mudanças na Constituição”; (2) a legalização do Partido Comunista; e (3) o confisco, sem indenização em dinheiro, de qualquer área agrária julgada pelo governo como inadequadamente utilizada, a qual seria entregue a camponeses sem terra. Brizola, que discursou no mesmo evento logo após Jango, vaticinou ainda (4) “a extinção do Congresso” (sic) e (5) a instituição em seu lugar de “assembléias de operários, camponeses e sargentos do Exército”. Cerca de 150 mil pessoas assistiram o discurso, sendo milhares deles militantes de esquerda trazidos de ônibus e de trem pelo governo portando bandeiras com a foice e o martelo.
A reação foi imediata. O povo saiu às ruas. Seis dias após o evento, mais de 600 mil pessoas marcharam nas ruas de São Paulo contra as propostas do governo. Os jornais também protestaram contra o ato tresloucado de Jango, bem como todos os setores organizados da sociedade civil.
Cito, a seguir, na íntegra, três editoriais: um antes do golpe, outro durante o golpe e mais outro após o golpe. Os dois primeiros são do Correio da Manhã, um dos maiores jornais do país à época; e o terceiro é do jornal O Globo. Por estes editoriais pode-se sentir o clima da época em relação às medidas socialistas, absurdas, de Jango. Na seqüência, citarei também trechos de editorias de outros dos principais jornais do período.
Correio da Manhã
(31 de março de 1964)

“Basta!

Até que ponto o Presidente da República abusará da paciência da Nação? Até que ponto pretende tomar para si, por meio de decretos-lei, a função do Poder Legislativo? Até que ponto contribuirá para preservar o clima de intranqüilidade e insegurança que se verifica presentemente, na classe produtora? Até quando deseja levar ao desespero, por meio da inflação e do aumento do custo de vida, a classe média e a classe operária? Até que ponto quer desagregar as Forças Armadas por meio da indisciplina que se torna cada vez mais incontrolável?Não é possível continuar neste caos em todos os sentidos e em todos os setores. Tanto no lado administrativo como no lado econômico e financeiro.Basta de farsa. Basta da guerra psicológica que o próprio Governo desencadeou com o objetivo de convulsionar o País e levar avante a sua política continuísta. Basta de demagogia, para que, realmente, se possam fazer as reformas de base.
Quase todas as medidas tomadas pelo Sr. João Goulart, nestes últimos tempos, com grande estardalhaço, mas inexeqüíveis, não têm outra finalidade senão a de enganar a boa-fé do povo, que, aliás, não se enganará.
Não é tolerável esta situação calamitosa provocada artificialmente pelo Governo, que estabeleceu a desordem generalizada, desordem esta que cresce em ritmo acelerado e ameaça sufocar todas as forças vivas do país.
Não contente de intranqüilizar o campo, com o decreto da Supra, agitando igualmente os proprietários e os camponeses, de desvirtuar a finalidade dos sindicatos, cuja missão é a das reivindicações de classe, agora estende a sua ação deformadora às Forças Armadas, destruindo de cima a baixo a hierarquia e a disciplina, o que põe em perigo o regime e a segurança nacional.
A opinião pública recusa uma política de natureza equívoca que se volta contra as instituições, cuja guarda deveria caber ao próprio Governo Federal.
Queremos o respeito à Constituição. Queremos as reformas de base votadas pelo Congresso. Queremos a intocabilidade das liberdades democráticas. Queremos a realização das eleições em 1965. Se o Sr. João Goulart não tem a capacidade para exercer a presidência da República e resolver os problemas da Nação dentro da legalidade constitucional, não lhe resta outra saída senão entregar o Governo ao seu legítimo sucessor.
É admissível que o Sr. João Goulart termine o seu mandato de acordo com a Constituição. Este grande sacrifício de tolerá-lo até 1966 seria compensador para a democracia. Mas, para isto, o Sr. João Goulart terá de desistir de sua política atual, que está perturbando uma Nação em desenvolvimento e ameaçando de levá-la à guerra civil.
A Nação não admite nem golpe nem contragolpe. Quer consolidar o processo democrático para a concretização das reformas essenciais de sua estrutura econômica. Mas não admite que seja o próprio Executivo, por interesses inconfessáveis, quem desencadeie a luta contra o Congresso, censure o rádio, ameace a imprensa e, com ela, todos os meios de manifestações do pensamento, abrindo o caminho à ditadura.
Os Poderes Legislativo e Judiciário, as classes armadas, as forças democráticas devem estar alertas e vigilantes e prontos para combater todos aqueles que atentarem contra o regime.
O Brasil já sofreu demasiado com o Governo atual. Agora, basta!

Correio da Manhã
(1 abril de 1964)

“Fora!”

“Art. 83. Parágrafo único. O Presidente da República prestará, no ato da posse, este compromisso: "Prometo manter, defender e cumprir a Constituição da República, observar as suas leis, promover o bem geral do Brasil, sustentar-lhe a união, a integridade e a independência".
Este foi o juramento prestado pelo Sr. João Goulart no dia 7 de setembro de 1961, perante o Congresso Nacional. Jurou e não cumpriu. Não é mais Presidente da República. Fora!
A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart senão a de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: saia.
Durante dois anos o Brasil agüentou um Governo que paralisou o seu desenvolvimento econômico, primando pela completa omissão, o que determinou a completa desordem e a completa anarquia no campo administrativo e financeiro.
Quando o Sr. João Goulart saiu de seu neutro período de omissão foi para comandar a guerra psicológica e criar o clima de intranqüilidade e de insegurança, que teve o seu auge na total indisciplina que se verificou nas Forças Armadas.
Isto significou e significa um crime de alta traição contra o regime, contra a República, que ele jurou defender.
O Sr. João Goulart iniciou a sedição no País. Não é possível continuar no poder. Jogou os civis contra os militares e os militares contra os próprios militares. É o maior responsável pela guerra fratricida que se esboça no território nacional.
Por ambição pessoal, pois sabemos que o Sr. João Goulart é incapaz de assimilar qualquer ideologia, ele quer permanecer no Governo a qualquer preço.
Todos nós sabemos o que representa de funesto uma ditadura no Brasil, seja ela de direita ou de esquerda, porque o povo, depois de uma larga experiência, reage e reagirá com todas as suas forças no sentido de preservar a Constituição e as liberdades democráticas.
O Sr. João Goulart não pode permanecer na presidência da República, não só porque se mostrou incapaz de exercê-la, como também porque conspirou contra ela, como se verificou pelos seus últimos pronunciamentos e seus últimos atos.
Foi o Sr. João Goulart quem iniciou de caso pensado uma crise política, social e militar, depois de ter provocado a crise financeira, com a inflação desordenada e o aumento do custo de vida em proporções gigantescas.
Qualquer ditadura, no Brasil, representa o esmagamento de todas as liberdades, como aconteceu no passado e como tem acontecido em todos os países que tiveram a desgraça de vê-la vitoriosa.
O Brasil não é mais uma nação de escravos. Contra a desordem, contra a mazorca, contra a perspectiva de ditadura, criada pelo próprio Governo atual, opomos a bandeira da legalidade.
Queremos que o Sr. João Goulart devolva ao Congresso, devolva ao povo o mandato que ele não soube honrar.
Nós do Correio da Manhã defendemos intransigentemente em agosto e setembro de 1961 a posse do Sr. João Goulart, a fim de manter a legalidade constitucional. Hoje, como ontem, queremos preservar a Constituição. O Sr. João Goulart deve entregar o Governo ao seu sucessor, porque não pode mais governar o País.
A Nação, a democracia e a liberdade estão em perigo. O povo saberá defendê-las. Nós continuaremos a defendê-las.

O Globo
(2 de abril de 1964)

“Ressurge a Democracia!”
Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.
Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.
Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.
As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”
No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.
Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.
Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.
Seguem agora trechos de outros editoriais de grandes jornais da época:
"De Norte a Sul vivas à Contra-Revolução"
“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade. Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas” (Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 de abril de 1964).
"Multidões em júbilo na Praça da Liberdade"
"Ovacionados o governador do estado e chefes militares.O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade. Toda área localizada em frente à sede do governo mineiro foi totalmente tomada por enorme multidão, que ali acorreu para festejar o êxito da campanha deflagrada em Minas (...), formando uma das maiores massas humanas já vistas na cidade” (O Estado de Minas, Belo Horizonte, 2 de abril de 1964).
“A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento” (O Dia, Rio de Janeiro, 2 de abril de 1964).
“Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou., o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu” (Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 2 de abril de 1964).
"A paz alcançada"
A" vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil” (O Povo, Fortaleza, 3 de abril de 1964).
“Vibrante manifestação sem precedentes na história de Santa Maria para homenagear as Forças Armadas. (...) Cinquenta mil pessoas na Marcha Cívica do Agradecimento” (A Razão, Santa Maria - RS, 17 de abril de 1964).
“Sabíamos, todos que estávamos na lista negra dos apátridas, que se eles consumassem os seus planos, seríamos mortos. Sobre os democratas brasileiros não pairava a mais leve esperança, se vencidos. Uma razzia de sangue vermelha como eles atravessaria o Brasil de ponta a ponta, liquidando os últimos soldados da democracia, os últimos paisanos da liberdade” (Revista O Cruzeiro, edição extra de 10 de abril de 1964 – Edição Histórica da Revolução, artigo Saber ganhar, de David Nasser).
“Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada” (Jornal do Brasil, edição de 1 de abril de 1964).
"...cuja subversão além de bloquear os dispositivos de segurança de todo o hemisfério , lançaria nas garras do totalitarismo vermelho, a maior população latina do mundo..." (31 de março de 1964, Folha da Tarde, do Editorial A grande ameaça).
"Quem quisesse preparar um Brasil nitidamente comunista não agiria de maneira tão fulminante quanto a do Sr. João Goulart a partir do comício de 13 de março..." (31 de março de 1964, Jornal do Brasil).
"Minas desta vez está conosco (...) Dentro de poucas horas, essas forças não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições" (1 de abril de 1964, O Estado de São Paulo).
"Feliz a nação que pode contar com corporações militares de tão altos índices cívicos. (...) Os militares não deverão ensarilhar suas armas antes que emudeçam as vozes da corrupção e da traição à pátria" (5 de abril de 1964, O Estado de Minas).
"Forças Armadas violaram a Constituição para poder salvá-la!" (6 de abril de 1964, Jornal do Brasil).
"A Revolução democrática antecedeu em um mês a revolução comunista" (5 de abril de 1964, O Globo).
Leia ainda matérias da revista O Cruzeiro, maior revista do país na época, celebrando o contra-golpe de 1964: primeiro, veja aqui como foi a Revolução de 1964 no Rio de Janeiro; depois, veja aqui como foi em São Paulo; e aqui, como foi em Minas Gerais; e ainda aqui como se deu a reação dos principais políticos da época; e aqui as explicações porque o golpe aconteceu.
No próximo artigo, os protestos e mobilização nas ruas de todo o país contra Jango, e os crimes dos terroristas de esquerda que adiaram a volta das eleições diretas e levaram ao AI-5.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Fim da transição

http://www.olavodecarvalho.org/semana/100118dc.html

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 18 de janeiro de 2010

O III Plano Nacional de Direitos Humanos tem dois objetivos principais: (1) inibir e suprimir, mediante o temor das sanções legais, toda resistência ao terrorismo de esquerda, passado, presente ou futuro; (2) entregar aos organismos revolucionários, eufemisticamente denominados "movimentos sociais", o poder total sobre a propriedade rural no Brasil.

As duas metas são distintas só em aparência. A primeira consagra o direito ao terrorismo comunista, a segunda faz daqueles que o pratiquem na zona rural os juízes soberanos de seus próprios atos.

O sentido do primeiro objetivo não se esgota, é claro, no gesto meramente simbólico de mandar nonagenários para a cadeia (se bem que isto tenha lá sua utilidade, do ponto de vista psicológico). Ele visa a consagrar como princípio legal a regra da "guerra assimétrica", onde um dos lados fica com todos os direitos, o outro com todas as obrigações, responsabilidades e encargos. O pretexto sublime é que estes últimos, como representantes do Estado, não podiam cometer as violências que, praticadas por seus adversários, seriam -- segundo a premissa embutida no argumento -- perfeitamente aceitáveis. Ora, mas esses adversários não constituíam tribunais, não julgavam, condenavam e executavam, inclusive a seus próprios companheiros infiéis? Não exerciam, assim, por autonomeação, as prerrogativas de agentes do Estado? Por que a culpa do agente legal do Estado que abuse de suas funções deveria ser maior que a daqueles que, além de abusar delas, as exercem ilegalmente, usurpatoriamente? A inversão revolucionária de sujeito e objeto não poderia ser mais evidente. Isto sem levar em conta o agravante notório de que vários terroristas brasileiros eram funcionários do governo cubano, atuando em nosso território não como inimigos locais do regime, mas como agentes estrangeiros. Raciocinar às avessas pode ter-se tornado uma prática tão habitual e corriqueira para os srs. Hélio Schwartzmann, Silvio Tendler e outros tantos apologistas do III Plano, que eles já nem percebem o que estão exigindo do público: que aceite, como preceito normal e óbvio, a idéia de que os agentes do Estado que cometam violência ilegal só devem ser punidos se estiverem a serviço do Estado brasileiro. Se trabalharem para o estrangeiro, podem matar, seqüestrar, torturar e roubar livremente, e ainda receber indenizações porque a polícia malvada não os deixou completar o serviço.

Quanto ao segundo objetivo, ele repete em gênero, número e grau a primeira palavra-de-ordem de Lênin ao desembarcar na Rússia revolucionária: "Todo o poder aos sovietes!" Na sua estrutura, nas suas funções e no seu espírito, os "movimentos sociais" do campo correspondem ponto por ponto aos sovietes. A essência da idéia não é tomar de imediato as fazendas particulares, é desprover seus proprietários de toda possibilidade de defesa perante um tribunal revolucionário. Essa defesa, aliás, já nem existe na prática. Quem não sabe que sentença de "reintegração de posse", hoje em dia, tem valor meramente sugestivo? Mas essa conquista meramente negativa não satisfaz às ambições da revolução: é preciso passar da mera supressão de direitos à afirmação ostensiva, oficial, do direito de suprimi-los.

Implantadas essas duas medidas, estará encerrado o "governo de transição" -- tarefa que o governo Lula assumiu explicitamente como sua --, e o caminho estará livre para a instauração do regime comunista, sem maiores disfarces ou anestésicos.

Tudo isso está planejado há décadas, no programa dos partidos de esquerda, nos livros de seus doutrinários e nas Atas do Foro de São Paulo. A mão que assinou aquela coisa é, afinal, a mesma que em 2001 firmou o compromisso de apoio irrestrito às Farc e condenou como "terrorismo de Estado" a luta do governo colombiano contra a narcoguerrilha. Em todo esse episódio, a única coisa que me surpreende -- mui moderadamente aliás -- é que ainda haja quem se surpreenda, depois de tantos avisos.

Que dirão agora aquelas lindas criaturas que uns anos atrás juravam "Lula mudou" e chamavam de louco quem quer que tentasse prognosticar o comportamento político do PT e demais partidos de esquerda não pela sua propaganda adocicada, mas pelos seus documentos internos, repletos de retórica odienta e ameaças apocalípticas?

Ah, não se preocupem, elas sempre encontrarão alguma desculpa esfarrapada. Afinal, vivem disso.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

“Presidente do Brasil busca garantir aborto como “direito” e proibir crucifixos em prédios governamentais”

Enorme programa legislativo sendo chamado de “golpe de Estado” não violento e “ditadura” de um partido socialista

Matthew Cullinan Hoffman, correspondente na América Latina

BRASÍLIA, Brasil, 22 de janeiro de 2010 (Notícias Pró-Família) — O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva introduziu um enorme pacote de reforma legislativa no último ano de seu mandato que garantirá o aborto como “direito humano”, imporá a ideologia socialista e homossexual nas escolas e meios de comunicação e proibirá crucifixos em dependências governamentais, entre outras medidas.
O programa legislativo, que se chama Terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), estabelecerá um nível de controle sobre os meios de comunicação e propriedade privada que está sendo chamando de “golpe de Estado” não violento e “ditadura” de um partido socialista. O programa provocou protestos generalizados de instituições abrangendo desde a Igreja Católica até a liderança militar, o setor agrícola e até ministros de governo.
A liderança da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou uma declaração que “reafirma sua posição, muitas vezes manifestada, em defesa da vida e da família, e contrária à descriminalização do aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e o direito de adoção de crianças por casais homoafetivos”.
A liderança da CNBB “rejeita, também, a criação de ‘mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União’, pois considera que tal medida intolerante pretende ignorar nossas raízes históricas”.
Ditadura de um partido socialista?
Se o Partido dos Trabalhadores tiver êxito em impor o pacote legislativo contido no PNDH-3, receberá amplos poderes para silenciar organizações da mídia que discordem de sua ideologia, para impor sua agenda política pró-aborto e pró-homossexualismo no país inteiro e para minar os direitos de propriedade privada. Os abrangentes poderes propostos pelo governo levaram pelo um proeminente jornalista do Brasil a falar de “ditadura” de um partido.
Por exemplo, o programa trata o assassinato de bebês em gestação como “direito humano” a ser protegido pelo Estado. A Diretiva 9 inclui “Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos”.
A diretiva também ordena a criação de “campanhas e ações educativas para desconstruir os estereótipos relativos às profissionais do sexo”.
“Educação e Cultura em Direitos Humanos”, o quinto “eixo” do programa, determina que as crianças desde a infância devem ser doutrinadas no conceito governamental de “direitos humanos”, o qual inclui “o estudo da temática de gênero e orientação sexual” com o propósito de “combater o preconceito, às vezes arraigado na própria família”.
A Diretiva 10 dá um golpe decisivo na tradição brasileira de mostrar crucifixos em dependências públicas, ordenando a criação de “mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União”.
A diretiva também propõe “Realizar campanhas e ações educativas para desconstruir os estereótipos relativos à… identidade sexual e de gênero”.
A Diretiva 19 do programa exige a criação de currículos “para todos os níveis e modalidades de ensino da educação básica” para “promover o reconhecimento e o respeito das diversidades de gênero, orientação sexual, identidade de gênero…”
As diretivas educacionais do programa terão um impacto ainda maior considerando o fato de que o governo recentemente aprovou uma emenda constitucional obrigando todas as crianças a serem enviadas para a escola a partir de 4 anos de idade.
Amplo Controle dos Meios de Comunicação e Propriedade Privada
A Diretiva 22 do PNDH-3 estabelecerá o controle estatal no conteúdo dos meios de comunicação, exigindo que as estações de rádio e TV mostrem “respeito aos Direitos Humanos nos serviços de radiodifusão (rádio e televisão) concedidos, permitidos ou autorizados, como condição para sua outorga e renovação [de suas licenças], prevendo penalidades administrativas como advertência, multa, suspensão da programação e cassação, de acordo com a gravidade das violações praticadas”.
A diretiva também determina a criação de “incentivos” para “pesquisas regulares que possam identificar formas, circunstâncias e características de violações dos Direitos Humanos na mídia”.
A Diretiva 8 propõe o uso dos meios de comunicação como porta-vozes do programa governamental de doutrinação em “direitos humanos” para jovens, determinando a “informação às crianças e aos adolescentes sobre seus direitos, por meio de esforços conjuntos na escola, na mídia impressa, na televisão, no rádio e na Internet”.
Com relação à propriedade privada, o PNDH-3 propõe que um “sistema legal” especial seja criado para a “mediação de conflitos fundiários urbanos, garantindo o devido processo legal e a função social da propriedade”. O programa usa linguagem semelhante para os conflitos de propriedade rural. De acordo com o jornal conservador espanhol El Pais, a linguagem é quase idêntica a do presidente Hugo Chavez da Venezuela, que fala do conceito de “propriedade social”.
O programa provocou choque e ameaças de demissão de elevados líderes militares por propor a criação de uma “Comissão da Verdade” para examinar crimes cometidos pelo regime militar na década de 1960 e 1970. Os líderes militares estão isentos de ações legais de tais crimes de acordo com as atuais leis brasileiras. Lula acalmou temores entre líderes militares concordando em aplicar a comissão para todas as violações de “direitos humanos”, as quais presumivelmente incluem as atividades terroristas da oposição socialista durante o mesmo período.
Controvérsias entram em erupção no Brasil
Embora o presidente Lula tenha aquietado temores de uma perseguição socialista contra seus antigos inimigos militares, o plano continua a provocar revolta e feroz oposição dentro do Brasil.
Reinaldo Azevedo, que dirige um blog para a revista mais lida do Brasil, a Veja, diz que a proposta estabelecerá uma “ditadura” dirigida pelos camaradas do presidente Lula, chama-a de um “golpe de Estado” sem derramamento de sangue e compara o governo ao de Hugo Chavez, que está gradualmente eliminando as liberdades civis na Venezuela.
Azevedo também escreve que as propostas “extinguirão a propriedade privada no campo e nas cidades” e declara que “o Regime Militar instituído em 1964 foi mais explícito e mais modesto” em suas intenções.
Dimas Lara Resende, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, comentou que “daqui a pouco vamos ter de demolir a estátua do Cristo Redentor”.
As associações de mídia e agricultura também levantaram a voz contra as propostas.
O presidente da Confederação Nacional da Agricultura, a senadora Kátia Abreu, disse que a criação de programas de mediação em casos em que as pessoas invadem propriedade privada incentivará a violência rural e prejudicará os direitos de proprietários de terras. Andre Meloni Nassar, diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, escreve que o programa é um “funeral para o agronegócio”.
Até mesmo o ministro da agricultura de Lula, Reinhold Stephanes, rejeitou a idéia, expressando temores de que tais medidas “aumentarão a insegurança no país” e “fortalecerão organizações radicais”.
Embora o próprio Lula tenha expressado preocupação com algumas partes do programa, ele parece determinado a defendê-lo, embora o programa ameace minar a forte popularidade de Lula em seu último de governo.

Traduzido por Julio Severo: www.juliosevero.com
Fonte: http://noticiasprofamilia.blogspot.com

Veja também este artigo original em inglês: http://www.lifesitenews.com/ldn/2010/jan/10012208.html

domingo, 24 de janeiro de 2010

Socialismo e a elite mundial

Espiral do Silêncio



Estudos sobre a Espiral do Silêncio começaram na década de 60. Essa teoria, foi proposta epecificamente a partir das pesquisas da alemã Elisabeth Noelle-Neumann sobre os efeitos dos meios de comunicação de massa. Na Alemanhã, entre 1965 e 1972, durante as campanhas eleitorais Noelle-Neumann percebeu uma súbita mudança de opinião, dos eleitores, na reta final do processo de eleição. De acordo com seus estudos, ao mudar de opinião, os eleitores buscavam se aproximar das opiniões que julgavam dominantes.


A idéia central desta teoria situa-se na possibilidade de que os agentes sociais possam ser isolados de seus grupos de convívio caso expressem publicamente opiniões diferentes daquelas que o grupo considere como opiniões dominantes. Isso significa dizer que o isolamento das pessoas, de afastamento do convívio social, acaba sendo a mola mestra que aciona o mecanismo do fenômeno da opinião pública, já que os agentes sociais têm aguda percepção do clima de opinião. E é esta alternância cíclica e progressiva que Noelle-Neumann chamou de Espiral do Silêncio (LAGE, 1998, p. 16).

Existe uma tendência de acompanhar a opinião da maioria das pessoas, talvez por medo do fator isolamento, isto pelo fato de, em geral, a sociedade exigir uma certa conformidade com o tema em discussão. Este cenário tem a finalidade de manter-se um mínimo de unidade para garantir coerência.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Espiral_do_sil%C3%AAncio

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Vídeo da Semana



Como podem pessoas com o mínimo de honestidade intelectual defender os princípios e ações do MST? Esta facção criminosa, braço armado do PT no campo, tem espalhado terror e destruição por todo o país. Com o novo Programa Nacional de Direitos Humanos, o MST será simplesmente intocável: qualquer invasão desta horda comunista será considerada um "conflito", e proprietários de terras e líderes dos invasores terão de "negociar". O Judiciário terá seu poder de intervenção reduzido e assistirá a tudo de longe. Reintegrações de posse serão ainda mais difíceis. E assim o Brasil vai lentamente adormecendo, para logo viver o pesadelo imposto pelos revolucionários.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Falsos Ídolos

O texto e a carta completarão sete anos, mas serve de reflexão.
Como alguém que saiba realmente toda a história de Ernesto Guevara de la Serna (Che Guevara) pode se quer admirá-lo?
Só há duas opções, ou está com suas faculdades mentais totalmente distorcidas ignorando totalmente a realidade ou acha que pregar uma revolução utilizando de violência e morte resolve alguma situação.

O estupro intelectual da infância
(Carta de Miguel Nagib ao professor Iomar)


Esta é a carta que um pai, cansado de ver a filha e suas colegas usadas como platéia dócil para a propaganda comunista num colégio de Brasília, enviou ao responsável por esse abuso intelectual de menores. É um documento humano da maior relevância para a compreensão da atual loucura brasileira.

O professor ensinava às meninas que Che Guevara era um santo do mesmo estofo moral de Francisco de Assis. Mas o que pode haver de comum, perguntava o remetente, entre o místico que professava: “Onde houver ódio, que eu leve o amor”, e o revolucionário sangrento que ensinava seus seguidores a transformar-se, pelo cultivo sistemático do ódio, em “eficientes e frias máquinas de matar”?

A resposta, evidentemente, não se encontra nem nos escritos de São Francisco, nem nos de Che Guevara. Encontra-se nos “Cadernos do Cárcere” de Antonio Gramsci, onde se ensina que a Igreja não deve ser combatida, mas esvaziada de seu conteúdo espiritual e usada como caixa de ressonância da propaganda comunista. Suprimido o conteúdo do seu discurso, esvaziado da fé cristã, da caridade, da obediência a Deus, reduzido ao estereótipo banal do jovem rico que abandona a família para ir falar aos pobres, Francisco torna-se indiscernível de Guevara. Eis o ensinamento de Antonio Gramsci transformado em prática pedagógica.
O atual ministro da Educação, sr. Christovam Buarque, não há de querer alegar que a conduta do professor de Brasília é um caso isolado. A mentira perversa que esse cidadão inocula em suas alunas é doutrina oficial ou pelo menos oficiosa do governo brasileiro, condensada na “teologia da libertação”, personificada no guru presidencial Frei Betto e retransmitida diariamente a milhões de crianças brasileiras nas escolas públicas e particulares. Que uma delas tente objetar, mesmo timidamente, e saberá o que é ser alvo de discriminação, de intimidação psicológica, quando não da ameaça explícita de ver sua carreira escolar arruinada.

O método pedagógico implantado neste país é o do estupro intelectual, calculado por Antonio Gramci para alcançar suas vítimas numa idade em que seus cérebros não estejam prontos para reagir criticamente a um assédio publicitário incansável e brutal.

Mas os manipuladores não se contentam com a propaganda doutrinária. Passam à arregimentação ativa, usando seus alunos como exército de reserva para engrossar passeatas convocadas pelo partido governista ou pela rede internacional de ONGs esquerdistas milionárias, que, mui gramscianamente, se autodenomina “a sociedade civil organizada”, ou seja, o Partido sob outro nome. Aí, também, a indocilidade custa caro ao aluno. Um de meus próprios filhos já foi vítima disso.

As escolas brasileiras, sustentadas com o dinheiro de nossos impostos ou de nossas mensalidades, transformaram-se em centros de adestramento da juventude comunista, ou fascista, já quase pronta para denunciar os pais à autoridade constituída quando ouvir em casa alguma conversa politicamente imprudente.

O que não posso, em sã consciência, é lançar a culpa de tudo no sr. Christovam Buarque. Seu antecessor no cargo já fez o possível para aplanar os caminhos do demônio. O sr. Buarque é apenas o feliz herdeiro e administrador desse legado macabro.

Olavo de Carvalho
19 de setembro de 2003

Carta ao Professor Iomar

por Miguel Nagib
19 de setembro de 2003



Senhor,
Fazei de mim um instrumento de vossa paz !
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz !
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado.
Compreender, que ser compreendido.
Amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna !

Onde, Professor Iomar, pôde o senhor encontrar alguma semelhança entre o Santo a quem são atribuídos esses versos e o monstro que pronunciou as seguintes palavras:

"O ódio como fator de luta. O ódio intransigente ao inimigo, que impulsiona além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm que ser assim. Um povo sem ódio não pode triunfar sobre um inimigo brutal.” ?

Que diabos o senhor tinha em mente ao comparar São Francisco de Assis a Ernesto “Che” Guevara? O senhor enxerga, realmente, uma afinidade entre esses dois personagens, ou a tentativa de associá-los visou apenas a reforçar, na imaginação dos seus alunos, o estereótipo romântico do guerrilheiro comunista?

Venho acompanhando há algum tempo o seu incansável esforço para doutrinar ideologicamente as crianças do Sigma, impingindo às suas frágeis consciências a visão que o senhor tem do mundo; e sei que para atingir esse objetivo – que o senhor certamente acredita ser necessário para a “construção de um mundo melhor” –, o senhor não hesita em aplicar à complexa disciplina que leciona o modelo de narrativa das histórias infantis, onde o Mal jamais se confunde com o Bem.

Assim, na história que o senhor ensina, a Idade Média é “do mal” e o Iluminismo é “do bem”; os capitalistas são “do mal” e os socialistas são “do bem”; os conservadores são “do mal” e os revolucionários são “do bem”; os Estados Unidos são “do mal”, a ONU e Cuba são “do bem”, e por aí vai.

Ora, direis, se as crianças gostam e aprendem, por que não? Além disso, não podemos esquecer que o senhor é um idealista e que o seu objetivo não é propriamente transmitir aos alunos um conhecimento objetivo sobre o passado, mas capacitá-los a “transformar o mundo”, não é verdade? Daí a necessidade de fornecer-lhes aquele conjuntinho básico de certezas que eles mais tarde vão poder usar numa mesa de botequim, num almoço em família, ou quem sabe até na vida pública. O senhor pensa longe, Professor.

Sei de tudo isso e se até hoje não procurei o senhor e a direção do colégio para discutir pessoalmente essa pedagogia de cabo eleitoral foi, primeiro, para não expor meus filhos a uma possível retaliação e, segundo, por estar ciente de que esse contato, afinal de contas, resultaria inútil, já que, na melhor das hipóteses, o senhor seria substituído por outro militante – a companheira Mariah, por exemplo, que tanto fez em sala de aula, no ano passado, pela eleição de nosso atual Presidente – e tudo ficaria na mesma, se é que não pioraria.

Mas com essa absurda comparação o senhor, francamente, passou dos limites. Afirmar a existência de uma semelhança entre um dos santos mais amados da Igreja e um assassino frio e calculista, um apologista do ódio, do qual os seus pobres alunos – e talvez o senhor mesmo – não conhecem mais do que a foto de Alberto Korda e o meloso “hay que endurecerse...”, é ir longe demais; é abusar do direito, que o senhor decerto acha que tem, de mentir para os alunos a pretexto de forjar neles uma “consciência crítica” – que é como vocês, militantes, se referem ao processo de envenenamento das almas desses jovens mediante a inoculação do marxismo mais grosseiro – e contribuir, desse modo, para a tal “construção de uma sociedade mais justa”.

“É inevitável que haja escândalos”, advertia Jesus Cristo, “mas ai daquele que os causar! Melhor lhe fora ser lançado ao mar com uma pedra de moinho enfiada no pescoço do que escandalizar um só destes pequeninos. Acautelai-vos!”

“Che” Guevara era tão parecido com Francisco de Assis quanto um discípulo de satanás se parece com um discípulo de Nosso Senhor.
De família rica, São Francisco de Assis abraçou a pobreza para levar amor onde houvesse ódio; “Che” Guevara largou tudo para levar o ódio a toda parte. São Francisco olhava para o Céu; “Che” Guevara não olhava senão para sua utopia materialista. O Santo dedicou sua vida ao Evangelho; o guerrilheiro, à mais assassina das ideologias. Amigo de Deus, São Francisco ajudou a edificar o Seu Reino; amigo de Fidel – que o traiu, enviando-o para a morte na selva boliviana –, “Che” Guevara ajudou a implantar o único regime totalitário da história da América Latina e uma das ditaduras mais antigas do planeta.

Professor Iomar, a despeito de sua militância e de seus compromissos político-partidários, que eu respeito, o senhor ainda é um educador e talvez conserve em sua alma um resto de amor à Verdade. Pois bem. Em nome desse sentimento, gostaria de pedir-lhe para dizer aos seus alunos apenas isto: que Ernesto “Che” Guevara não tem nada a ver com Francisco de Assis.

Obrigado,
Miguel Nagib
m.nagib@uol.com.br

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

DEFENDA-SE DA VIGARICE: ESCOLHA OS FATOS

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/defenda-se-da-vigarice-escolha-os-fatos/?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+ReinaldoAzevedo+%28Reinaldo+Azevedo%29&utm_content=Google+Reader

A expressão mais mentirosa da história deste país é “NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS”. Em tempo: leitores recentes do blog às vezes se incomodam com o meu “destepaiz”. É só uma homenagem à língua luliana… A Folha desta segunda traz uma entrevista que o jornalista Márcio Aith fez com o economista Claudio Salm. Se você não agüenta mais ouvir os abduzidos do petismo a dizer bobagens em festinhas; se você tem a certeza de que os “números” usados pela companheirada para provar que Lula é mesmo o salvador da pátria são mentirosos, mas não dispõe de dados exatos para rebater; se você sente o cheiro da vigarice, mas não consegue encaixar um contra-argumento no fígado do oponente, leia a entrevista, colete os dados e fique com eles na algibeira — ninguém mais usa algibeira, sei: servem o bolso da calça, o do paletó, o da camisa…

Salm fez um levantamento da evolução de indicadores sociais a partir de 1996 e constatou o óbvio, conforme consta na abertura da entrevista, escrita por Aith: “O economista Claudio Salm diz que a evolução dos indicadores sociais no Brasil não é conquista de um único partido ou de um único presidente. Segundo ele, o país está melhor por uma sucessão de fatores que não obedece ao calendário ou à lógica eleitoral. Entre eles, a consolidação de uma mesma política social, a queda na taxa de natalidade e o fim de um duro ciclo estrutural de crescimento sem emprego, que durou até 2000.” Antes que publique trechos da entrevista, alguns dados objetivos para você fazer a sua tabelinha:

ACESSO A ÁGUA
1996 – 48,5%
2002 – 59,6%
2008 – 68,3%

REDE DE ESGOTO
1996 – 32,3%
2002 – 41,1%
2008 – 52,4%

ILUMINAÇÃO ELÉTRICA
1996 – 79,9%
2002 – 90,8%
2008 – 96,2%

Seguem alguns trechos da entrevista de Salm. Lembre-se sempre: ele só lida com dados oficiais, do IBGE.

CONTINUIDADE
“Do ponto de vista da política econômica já sabemos que não houve qualquer ruptura, como o próprio Lula havia anunciado que não haveria, em 2002, na famosa Carta aos Brasileiros. Eu diria até que, em alguns aspectos, como o da política monetária, Lula é mais conservador que FHC. Conservador no sentido do excessivo cuidado em relação à banca. Quanto à política social, é só conferir os números. O período Lula é uma continuidade do período FHC, com tudo o que tem de bom e de ruim. Houve uma progressão contínua na qualidade de vida dos 25% de brasileiros mais pobres. Desde 1996, vários indicadores melhoram mais ou menos no mesmo ritmo: acesso às redes de água e esgoto, coleta direta de lixo, iluminação elétrica, posse de telefone, máquina de lavar. Essa conversa de herança maldita é pura bobagem.”

SALÁRIO MÍNIMO
“São muitos. A década de 80 foi desastrosa para o mercado de trabalho, trazendo graves consequências para o nível e a qualidade do emprego: informalidade e a interrupção de uma longa trajetória de crescimento do trabalho assalariado com carteira assinada. Outro exemplo é o salário mínimo. Ele ainda está abaixo do que era sob a Presidência JK [1956-61], embora tenha aumentado 50% no governo FHC e outro tanto no governo Lula. Aliás, a recuperação do salário mínimo começou para valer a partir de 1995, quando FHC deu um aumento de cerca de 40% com a inflação já debelada.”

REDUÇÃO DA POBREZA
“FOLHA - 32 milhões de brasileiros ingressaram no conjunto das classes A, B e C sob Lula. Isso não é ruptura?
SALM - No mesmo período houve diminuição da pobreza e melhoria da distribuição de renda em quase toda a América Latina. É verdade que, no Brasil, foi ainda mais rápido. Isto já vinha do governo FHC, quando o IDH aumentou e a população pobre caiu 10%. O processo aqui foi favorecido pelo maior crescimento. Durante FHC o PIB anual cresceu em média 2,3%; durante Lula, 3,9%. Isso não é ruptura, mas ciclo econômico, como já tivemos tantos. Não podemos esquecer que a estabilidade do Real também reduziu a pobreza e o desemprego.”

BOLSA FAMÍLIA E DISTRIBUIÇÃO DE RENDA
“FOLHA - E o papel do Bolsa Família?
SALM - Programas sociais de transferência de renda são, sim, fundamentais para reduzir a miséria absoluta. Ainda mais quando cumprem com condicionalidades, como a exigência de frequência à escola. Ninguém seria louco de eliminá-los. O Bolsa Família não deixou de ser uma continuidade: juntou o Bolsa Escola e o Bolsa Alimentação, que vinham do governo anterior. O Bolsa Família também pode funcionar, indiretamente, para elevar os rendimentos do trabalho. Quem recebe o benefício tem melhores condições para resistir a uma diária aviltante. Mas não é tudo o que parece quanto à distribuição de renda. Nesse sentido, mais importante foram o crescimento do emprego e a recuperação do salário mínimo. O gasto público social aumentou? Ótimo. Mas, simultaneamente a isso, as políticas sociais universais, como educação e saúde, ficaram para trás.”

EDUCAÇÃO
“FOLHA - Em dez anos, o número de alunos em universidades saltou de 2 milhões para 4 milhões. Esse aumento não o sensibiliza?
SALM - Para falar a verdade, pouco. Formou-se no Brasil um ciclo nefasto, que começa na falta de atendimento de creche e de pré-escola e acaba em gigantescas universidades privadas que estão mais para escolões do que para universidades. A coisa funciona assim: como o percentual de crianças com atendimento adequado na educação infantil é mínimo, elas já chegam ao ensino fundamental com deficiências. Aí avançam rapidamente, com o artifício da progressão continuada ou do ciclo básico, mecanismos que escamoteiam a repetência. Quando sai do ensino fundamental, não sabe nem falar, nem articular direito. Não avançamos na implantação do horário integral. Tampouco avançamos na melhoria do ensino médio. No governo FHC os alunos no ensino público federal aumentaram em torno de 50%. Sob Lula, o ritmo caiu pela metade.”

SAÚDE
“FOLHA - Quais são os indícios de que a saúde piorou?
SALM - A população nunca reclamou tanto, o que é um indício importante. Não há muitos indicadores de acompanhamento confiáveis, mas alguma coisa existe. A relação entre internações e habitantes, no SUS, vem caindo desde o governo Itamar. Parece uma coisa boa. Só que essa relação aumenta nos hospitais privados. A relação entre exames e consultas não se alterou no sistema público. Já no atendimento privado, aumentou. No Rio, os médicos dizem que as mortes evitáveis nos hospitais vêm aumentando, inclusive nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento, da prefeitura atual), por causa da precariedade das conexões com os hospitais do SUS. Estamos claramente diante de um subfinanciamento do SUS, como diagnostica a médica Lígia Bahia. Só não piorou ainda mais por conta da vinculação dos recursos para a Saúde, com a Emenda 29, iniciativa do Serra. O aumento e a diversificação da oferta dos remédios genéricos estagnou com o Lula, quando a Anvisa foi loteada.”

Voltei
Ah, sim: Salm está longe de ser o que um petralha chamaria “direitista” ou “neoliberal”. Vejam esta pergunta e esta resposta:
“FOLHA - O senhor é filiado a algum partido político? É tucano?
SALM - Nem tucano nem filiado a partido político. Votei no José Serra para presidente em 2002 e colaborei na campanha dele, mas não fiquei triste com a vitória do Lula.”

Como se nota, ele não disse em quem votou em 2006, mas acho que dá para presumir. Outra resposta evidencia, vamos dizer, seu alinhamento ideológico mais geral: “As condições econômicas, especialmente no front externo até a eclosão da crise mundial, foram muito mais favoráveis a Lula que a FHC. O importante para mim é que a onda neoliberal não conseguiu acabar com os avanços social-democratas da Constituição de 88. O principal mérito de ambos, até aqui, é o respeito pela democracia. Na economia, vejo, como os principais problemas dos dois, a facilidade com que permitiram, ou promoveram, a apreciação cambial, os juros mais altos do mundo e o descaso, nos dois períodos, com o investimento público que está num nível baixíssimo, um dos mais baixos do mundo. Nessas áreas a continuidade foi incrível.”

Diria que isso o define, para ser genérico, como um “desenvolvimentista de centro-esquerda”. Eu, por exemplo, não sei o que quer dizer “onda neoliberal” — ou melhor: entendo o que as esquerdas querem dizer com isso, mas acho um conceito equivocado.

Isso, no entanto, é o de menos. O que interessa é que Salm lida com dados objetivos da economia, não com chutes e achismos.

“Nunca antes nestepaiz” houve uma máquina de propaganda tão poderosa e especialmente montada para mentir e trapacear. Como “O Partido” dá as cartas na academia e, infelizmente, na imprensa — sim, sim, com exceções, sabemos —, as mentiras foram prosperando e criando o mito do presidente que teria promovido uma verdadeira revolução na área social. Cinicamente, dizem alguns: “Ora, FHC que soubesse fazer propaganda direito do seu governo; sorte de Lula se ele é mais competente nessa área. Culpa de FHC se não reconhecem o mérito de FHC!”

Bem, tal consideração nada mais é do que a apologia da malandragem e do rebaixamento institucional. Ninguém censura o governo Lula pelos méritos que tem. O problema é cantar os méritos que não tem e ainda bater a carteira do governo que o antecedeu.

Estou cantando e andando se A VERDADE é ou não eleitoralmente eficaz. Não faço campanha política. Isso é coisa dos blogueiros de aluguel e de serviços e de sua meia-dúzia de seguidores. Meu compromisso com os leitores se sustenta em dois pilares: 1) os fatos; 2) o estado democrático e de direito. E, por isso, crescemos sempre.