quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A filosofia política neo-ateísta e o problema da Teodiceia

Fonte: http://philiapolitike.wordpress.com/2010/11/25/a-filosofia-politica-neo-ateista-e-o-problema-da-teodiceia/

A maior arma de arremesso argumentativo do ateísmo militante é, sem dúvida, o problema do Mal. O ateísta pergunta: “se Deus-Pai benigno existe, porque é que existe o mal no mundo?” E a partir desta questão, partem para a refutação da existência de Deus. Este argumento não é novo: Leibniz foi enxovalhado por Voltaire — que não se assumindo como ateísta, dizia-se um deísta confesso (maçom) — devido à defesa do filosofo alemão da teoria do Melhor dos Mundos, segundo a qual Deus teria criado o melhor dos mundos possível.
Dizia Leibniz que Deus, entre muitas hipóteses possíveis, e dando curso ao Seu livre-arbítrio plenipotenciário, escolheu de entre essas hipóteses possíveis para o mundo, a melhor delas. Porém, depois que se deu o terramoto devastador de 1755 em Lisboa, Voltaire escreveu uma novela (“Cândido”) cuja personagem principal — para além do próprio Cândido — era o Professor Pangloss que era o tutor do Cândido. O nome germânico “Pangloss” foi imediatamente associado a Leibniz e à sua teoria da Teodiceia, segundo a qual Deus criou o melhor dos mundos possíveis. Nessa novela “Cândido”, Voltaire apresentou o argumento principal do neo-ateísmo moderno e contemporâneo: se existe Deus e vivemos no melhor dos mundos possíveis, porque é existe o Mal? — e consideram-se aqui, de uma forma exclusivamente utilitarista, as catástrofes naturais como uma expressão do Mal.
Esta crítica à Teodiceia é recorrente no neo-ateísmo e é a principal trave do edifício da argumentação de gente como Daniel Dennett, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris, Julian Savulescu, Anthony Cashmore, Peter Singer, etc. Partindo do princípio de que o Mal existe, e que Deus não erradicou esse Mal, partem para uma concepção do mundo e do universo em que a realidade se resume a um processo natural cego e aleatório, traduzido na seguinte frase de Richard Dawkins :
“O universo que observamos tem precisamente as propriedades que esperaríamos dele, basicamente sem desígnio, sem finalidade ou propósito, sem mal nem bem, nada senão uma cega e impiedosa indiferença.”
Esta concepção do universo é a continuidade e actualização da crítica de Voltaire a Leibniz.

Em primeiro lugar, a pergunta que deveria ser feita, antes de mais nada, pelos ateístas, seria a seguinte : “Por que é que existe algo em vez de nada?” (Leibniz). Em vez disso, o ateísta ignora esta pergunta fundamental e primordial e, assumindo o universo como um efeito sem causa, passa à pergunta seguinte : “Por que é que existe o Mal no mundo?”. Ora, a verdade é que não é possível elaborarmos uma teoria coerente e convincente que dê resposta à segunda pergunta sem equacionarmos, em primeiro lugar, uma teoria que dê resposta à primeira pergunta.
O ateísta assume a posição de alguém que, perante uma determinada realidade, admite com resignação a existência de um determinismo — uma espécie de fado existencial, ou facticidade — que o impede de se questionar para além daquilo que percepciona directamente. Existe nesta posição ateísta uma espécie de “pragmatismo do estúpido”: perante a dificuldade na elaboração de teorias que resolvam determinados problemas, opta-se por fazer de conta que esses problemas simplesmente não existem. E por isso, a origem do nosso universo é simplesmente escamoteada.
Em segundo lugar — e recorrendo eu agora ao filósofo americano William Dembski — os ateístas deveriam também perguntar: “Por que é que existe o Bem no mundo?” Porém, esta pergunta não é feita pelos ateístas, e a omissão da pergunta é (outra vez) propositada. A abordagem dos ateístas ao problema da ética na sua relação (metafísica) com Deus, faz-se sempre pela negativa — coloca-se sempre o acento tónico no Mal, e faz-se de conta que o Bem não existe. Esta super dramatização ateísta do problema do Mal do Mundo (este tremendismo maléfico) tem origem no gnosticismo da antiguidade tardia, o que transforma realmente o neo-ateísmo contemporâneo numa metafísica negativa (numa espécie de religião do Mal).
Portanto, as perguntas correctas e lógicas, a serem colocadas, deveriam ser as seguintes:

  1. Por que é que existe algo em vez de nada?
  2. Por que é que existe o Bem e o Mal?

Os ateístas ignoram a primeira pergunta e só consideram válida uma parte da segunda pergunta; ou seja, os ateístas truncam a realidade para a adaptar a uma visão pragmatista e estupidificante da realidade.
Pelo contrário, a verdadeira filosofia e as religiões em geral têm sempre presente o conjunto das duas perguntas, sem o qual não existe qualquer nexo lógico quando abordamos o problema da Teodiceia. Não podemos partir a realidade a meio, e interpretar somente essa metade como se fosse a totalidade da realidade — e é isto que o neo-ateísmo faz, e quem faz isso em nome da filosofia, para além de estúpido, reduz a filosofia a uma ideologia política (no sentido iluminista : uma religião política).

6 comentários:

  1. RESPOSTA

    Doutor em estudos bíblicos, Ehrman é um ex-pastor evangélico e conhecedor das escrituras.

    Estudando o livro sagrado dos cristãos, ele desconstrói vários conceitos, entre eles o do sofrimento do mundo, causado pelo pecado original. Honesta e logicamente, ele conta suas experiências pessoais e mostra o que o levou a perder a fé. E por que o Deus no qual ele acreditava não existe.

    O problema com Deus motiva todas as pessoas – sejam elas de fé ou não – a enfrentar suas perguntas mais profundas sobre como Deus se ocupa do mundo e de cada um de nós. Você pode se surpreender, pode ficar perturbado, mas certamente será desafiado por este livro.

    O livro “O problema com Deus”

    Bart D. Ehrman, um dos maiores especialistas em estudos bíblicos e origens do Cristianismo, procura nos textos dos Evangelhos respostas para uma dúvida que há séculos atormenta o homem:
    Por que sofremos?
    Seria punição pelos nossos pecados?
    Esta é a natureza das coisas?
    Um teste que devemos suportar para sermos recompensados no final?
    A Bíblia não tem só uma resposta. Mas soluções distintas que freqüentemente se contradizem.

    Ehrman convida todos os leitores a enfrentar suas perguntas mais perturbadoras sobre como Deus se ocupa do mundo e de cada um de nós. E contesta as explicações bíblicas contraditórias sobre os motivos de um Deus Todo-poderoso permitir que soframos. O resultado é um livro poderoso em seu questionamento e grandioso em suas respostas. Os cristãos são desafiados em seus próprios termos e atraídos para perguntas essenciais. Os que duvidam farão uma viagem inteligente e amigável por algumas idéias fundamentais sobre a alma humana.

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  2. Depois de quase dois milênios de crudelíssima imposição religiosa é natural que o ateísmo esteja em ebulição no mundo. Do mesmo modo, é natural a indignação dos crentes, até porque o cristianismo nunca foi democrático e eles foram acostumados assim. A retórica teológica se aprimora na esperança de salvar a crença do inevitável esgrimindo com falsos adversários. Os menos estúpidos sabem que o grande adversário é o tempo. Não posso falar das vantagens de um mundo ateu porque ainda não conhecemos este mundo. No entanto, podemos e devemos falar das desvantagens de um mundo religioso porque a história nos faculta isso. O escritor Pedro Nava dizia que a experiência é como um farol voltado pra trás. Só ilumina o que já passou. É assim mesmo que a humanidade caminha e procura na escuridão cósmica por uma sorte melhor. Nem só na filosofia se apóia o ateísmo. O cultuado e louvado deus da bíblia era execrado nos primeiros séculos e até comparado ao diabo. Não havia Deus, havia Zeus, o todo poderoso. Desde quando a teologia se transformou na engenharia da enganação, a idéia do divino começou a se complicar. Essa discussão idiota não existia na Antiguidade porque esse tipo de ignorância era levado mais a sério. Está faltando seriedade no trato deste assunto por causa de interesses menores. Tal percepção era clara e não cabia dúvida quanto a sua existência, tanto quanto não nos cabe dúvida quanto a nossa própria existência. Fazemos parte do contexto de uma inteligência maior e mais abrangente do que a nossa imaginação. Albert Einstein diferenciava o deus cultural de Israel, o da bíblia, da inteligência cósmica, da qual não fazemos idéia. Também, ninguém de nós sabe o que na verdade é o judaísmo; mas os gregos antigos da elite o repudiavam. Os movimentos religiosos reativos e sob influência grega, da época, condenavam o deus dos judeus como o malévolo criador da humanidade. Para aqueles, tal criação foi um grande mal. Por incrível que pareça, foi dessa rixa ou desse confronto cultural que surgiu o cristianismo; uma história ainda mantida convenientemente sob a névoa das discussões estéreis. Sou ateu porque conheço o bastante desta história para negar a existência do deus cultural de Israel e a farsa de Jesus Cristo. Simples assim.

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  3. Essa questão de que Deus é somente benevolência é um engodo que não tem fim.
    Deus não é bom, Deus não é mau.Simples
    Faz um tempo que soube que a bíblia tem vários textos apócrifos,seja do novo testamento ou do antigo testamento.É notório que sabemos que a criação de Adão não está explicado, aliás muito mal explicado, pelo simples fato de que houve uma supressão da criação.
    Pensar que os hebreus sempre foram monoteístas é um erro. Agora reconhecemos que o povo hebreu é de fato o primeiro povo conceber a crença da existência de um único Deus.
    Temos trechos apócrifos da bíblia em que mostra o politeísmo.E o texto mostra o porquê do ser humano conhecer o conceito do bem e do mal, e que isso foi a maior falha que Deus de propósito proporcionou aos pobres seres humanos.
    E dizia que o ser humano conheceria o bem e o mal porém não estaria acima disso, ou seja isso seria o que chamamos de dualidade.
    E os Deuses diziam entre si, que acima do bem ou do mal só seria uma virtude dos Deuses.Ou seja é claro a limitação que Deus nos impôs.
    O conceito do amor é a coisa humana, e Deus nunca teve amor para com a sua criatura, no máximo compaixão.Quem quiser discordar esteja a vontade, quem ama de fato não castiga como Deus castigou o ser humano, que no final das contas deixou para lá o ser humano, viu que a criatura não tem jeito mesmo.Como a bíblia é literalmente metafórico, então qualquer linha de pensamento é válido, só não pode interpretar de forma literal, isso seria um erro colossal.

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  4. todos falam que deus é isso,deus é aquilo,ele faz tal coisa...mas afinal quem ou o que é deus?acho q nao há como responder as perguntas acima justamente por causa dessa pergunta que fiz,alias que provavelmente todos nós já devemos ter feito em algum momento,nosso entendimento de deus ainda é muito vago e imperfeito,por isso acho que todos as religiões são validas,pois todas tentam se comunicar com deus de alguma forma,portanto ninguem no mundo tem conhecimento pra afirmar que ele existe ou se nao existe.creio que é essa pergunta que move o ser humano:deus,o que é você?fruto da imaginação,ou o grande criador?

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  5. http://www.youtube.com/watch?v=x0w5iAqlYbQ

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